Saturday, January 15, 2011

Sangria


Quando era pequeno, sangria para mim era um pouquinho de vinho misturado com água, açúcar e gelo que meu avô fazia quando íamos almoçar na churrascaria Porteira dos Pampas. Não que ela não fosse. Pra mim essa era uma sangria mágica, especial, que vinha preparada pelas mãos do meu querido avô.

É lógico que a sangria “verdadeira” é muito melhor. Também é lógico que eu não inventei a sangria, nem a receita dela. Mr. Google e seus milhões de páginas me deram várias receitas e essa que eu divido com vocês é minha predileta, embora não me lembre suas origens. Mas sangria é domínio público. Quer saber quem inventou? O dono da receita? Faça alguém incorporar o espírito de um cigano legítimo, lá da Andaluzia e pergunte pra ele.

Mas a sangria é uma excelente opção para acompanhar vários tipos de pratos e petiscos e é uma opção deliciosa para quem gosta de vinho, mas não encara um tinto puro no calor.

Então reúna os seguintes ingredientes:

03 garrafas de vinho tinto gelado (Vinho Chapinha, San Tomé e congêneres NÃO PODE! Mas tem que ser um vinho modesto, sem grandes requintes. Recomento o chileno Gato Negro, que tem preço barato e são muito gostosos.

½ a 01 litro de água com gás ou soda limonada (eu prefiro com soda) gelada

01 copo de rum

½ lata de pêssegos em calda picados e 01 copo da calda

01 maçã vermelha grande picada (eu gosto com casca e tudo)

01 punhado de uvas Red Globe picadas

03 ou 04 rodelas de abacaxi picado

02 laranjas cortadas em pequenos triângulos com casca

Outras frutas picadas a seu gosto (kiwi, cerejas, morangos,etc)

Bastante gelo

Açúcar a gosto

Canela em pau

Cravo

Coisa simplérrima: numa grande vasilha, misture todos os ingredientes. Eu gosto de colocar num enorme recipiente de vidro transparente e servir com concha, porque acho charmoso ver as frutas boiando com o gelo. Se acabar a sangria, basta repor um pouco mais de frutas, o vinho, o rum e água ou refrigerante, adoçar, colocar gelo e servir. A sangria também pode ser feita com vinho branco, champagne e pasmem, ouvi dizer que até com sakê. Mas pra mim, a melhor é ainda a boa e velha sangria de vinho tinto. E um brinde!

Arroz de Matambre do Doutor Fofinho



A primeira vez que comi matambre foi numa churrascaria chamada Galpão Crioulo em Porto Alegre. Eles serviam no espeto, em forma de rocambole, recheado com bacon, ervas e legumes. Toda vez que ia ao sul do país me deliciava com isso. Quando comecei a cozinhar, cheguei a procurar em alguns açougues o matambre, mas ninguém conhecia. Só conseguia encontrar nos restaurantes argentinos, que serviam “matambrito”: um matambre desfiado como aperitivo. Só fui conseguir comprá-lo quando descobri que o matambre era a capa da costela e, que esse nome vinham do espanhol “mata hambre”, pois era a primeira parte retirada do boi após o abate. E pasmem, descobri isso numa daquelas receitas da Revista Caras, enquanto estava na cadeira da clínica de podologia.

A primeira vez que fui tentar fazer o matambre foi uma catástrofe. Fizemos um churrasco na casa de uma amiga, montei todo orgulhoso o rocambole recheado com bacon, legumes, couve. Embrulhei em papel alumínio e, depois de hora de brasa, retirei, com água na boca. Tomei pau. O matambre estava um pau. Minha amiga, a primeira a experimentar, disse: “Está gostoso. Só está muito duro. Mas o tempero está muito bom”. Nem precisa dizer que o recolhi do churrasco e ainda levei pra casa o outro pedaço que sobrou sem cozinhar.

No dia seguinte coloquei aquele rocambolinho pra cozinhar na panela de pressão. Deixei a carne cozinhar até ficar desmanchando e do cozimento sobrou um molho com um sabor estupendo. Comi o matambre com arroz branco, jogando aquele molhinho por cima e ficou fantástico.

A partir daí, fui incrementando o matambre, até que virou um prato conhecido e aclamado pelos meus amigos. Já o cozinhei várias vezes em casa ou em casa de amigos. E, em agosto de 2010, a receita foi matéria da Revista Gula. Então deixo aqui a receita do meu Arroz de Matambre:

2 kg de Matambre ou “capa de costela” (em SP quase ninguém sabe o que é matambre). Retirar a capa de gordura que envolve a carne; a carne já é gordurosa o suficiente. Corte em cubos grandes.

200 g de bacon em pequenos cubos

Sal

Pimenta do reino em grãos

Pimenta de bico (umas dez unidades)

Louro

Azeite de Oliva Extra Virgem

Azeitonas em rodela e sem caroços

Uma cabeça de alho (os dentes podem ficar inclusive com casca)

Canela em pau

Cinco dentes de cravo

Um pouco de noz moscada ralada

Cachaça (cerca de um copo americano)

Salsinha e cebolinha

Cominho fresco

Uma cebola grande

Bacon

Tomate picado ou 250 gr. de tomate cereja bem vermelhinho e doce.

E outros temperos que vierem à cabeça...

1 kg de Arroz (pode ser arroz branco misturado com arroz selvagem, só arroz branco ou vários tipos de grãos misturados...)

Primeira etapa: colocar o matambre com todos os temperos numa vasilha grande ou num saco plástico transparente e resistente, inclusive com a cachaça. Cobrir com um pouco de água se estiver na vasilha ou fechar bem o saco plástico e deixar na geladeira de um dia para o outro. Eu gosto de deixar o alho com casca e tudo porque, além ficar mais saboroso, ele geralmente fica pastoso por dentro da casca.

Segunda etapa (pode ser feito várias horas antes de preparar o arroz): Pegar a carne que ficou curtindo no tempero, colocar numa panela de pressão. Cozinhar até que a carne fique bem macia, quase dissolvendo. Se, no final do cozimento, houver pouca água, acrescente um pouco mais de água e ferva por uns 10 minutos. Retire somente os cubos de carne e reserve. Esse molho vai ser usado no preparo do arroz. Sugiro retirar os cravos e canela após esse cozimento, porque geralmente as pessoas não gostam da sensação de mastigar esses condimentos com a comida.

Terceira etapa: com manteiga (que pode ser manteiga de garrafa) ou azeite, doure alho e cebola numa panela grande. Também gosto de misturar à manteiga ou ao azeite uma colher de sopa de dendê. Eu costumo usar a Wok, porque acho bonito visualizar os ingredientes enquanto preparo.

Coloque todo o arroz, refogue e vá adicionando o molho da carne e mexendo com cuidado. Depois de refogado, coloque todo o molho da carne e vá cozinhando o arroz, movimentando levemente o conteúdo para não grudar no fundo. Geralmente o arroz selvagem é o mais duro de todos. Quando ele estiver quase mole, misture a carne ao arroz, mexendo com cuidado para não desmanchar ou empapar. Uma outra possibilidade é cozinhar o arroz selvagem na panela de pressão junto com o matambre, poupando o tempo que leva para ele amolecer. Pode servir na própria panela ou numa vasilha grande, enfeitando com pimenta de bico, galhos de salsinha.

Se você estiver num espírito muito argentino, o matambre combina bem com vinho tinto ou sangria. Se escolher o tinto, sugiro o malbec Altos Las Hormigas, que não é caro e tem um sabor encorpado. Buen apetito!


Friday, January 7, 2011

Penne com salmão defumado ao molho de laranja



Fome e preguiça são coisas que não combinam muito bem, mas muitas vezes andam de mãos dadas. É por isso que cresce, a cada dia, o números de fast-foods, deliverys e comidas prontas. É lógico é muito gostoso comer uma junk food vez ou outra, mas eu ainda prefiro uma comidinha feita na hora, ainda que simples.

E assim surgiu esse macarrão: no vazio da geladeira num dia de fome incontornável. Gosto sempre de ter na geladeira aqueles pacotinhos de salmão defumado temperado, tipo Lox ou Gravlax. Adoro comer com pão preto e cream cheese ou mostarda Dijon. Mas naquele dia não tinha nem pão, só penne.

Então cozinhei o penne e juntei o salmão defumado cortado em pequenos pedaços (ele costumam desmanchar sozinho na mão ou no garfo) e fiz um delicioso molho branco parecido com um molho que a Nigella, aquela gulosa britânica fez um dia. Não vi a receia dela, vi apenas ela despejando aquele molho suculento num spaghetti.

O molho foi feito mais ou menos como são feitos os molhos brancos franceses:

Derreta na panela 100g de manteiga. Quando derreter, desligue o fogo e acrescente duas colheres de sopa de farinha de trigo. Mexa devagar até dissolver completamente. Pode ser que fique uma massa bem grossa, mas não se assuste! Ligue o fogo e vá acrescentando leite e mexendo sempre até dissolver e formar um molho grosso. Acrescente sal, pimenta do reino, um pouco de vinho branco e alho moído. Ferva mexendo por uns 5 minutos, desligue e acrescente o suco de seis limões ou 1/2 copo de suco de laranja, mexendo devagar para não "talhar". Hoje, como não havia leite, fiZ o molho com água e acrescentei sour cream (creme de leite azedo) no final do cozimento. Quando o macarrão estiver cozido, misture tudo numa vasilha e sirva com queijo ralado.

Para acompanhar, recomendo um bom vinho rosé ou um espumante rosé, como o Cave Pericó Rosé Brut, do Rio Grande do Sul, que é muiito saboroso.


Wednesday, January 5, 2011

Eggs Benedict



Ovos são maravilhas inventadas por Deus. Entram no preparo das massas, dos pães, dos bolos, panquecas, crepes; "invadem" esparramados as nossas sopas; compōem maravilhosas receitas de doces. Além de tudo isso, o ovo é uma iguaria por si só. Frito, cozido, poché, mexido, omelete. Uma das coisas mais maravilhosas que já comi foi o Eggs Benedict. É algo muito fácil de fazer e que eu adoro comer no café da manhã nos finais de semana. Em New York existem diversos lugares que fazem esse prato, mas em São Paulo, a maioria das minhas experiências foram desastrosas e acabei concluindo que o melhor Eggs Benedicts de São Paulo é feito na minha casa mesmo.

Ele é composto de um pão, geralmente o English muffin, que é um pão com um gosto meio encruado e que pra mim só fica bom tostado e para usar nessa receita; sobre o pão, uma fatia bem grossa de lombo canadense frito na chapa (aqui em em NYC eles chamam de Canadian Bacon), 02 ovos poché e o molho holandês por cima, uma pimentinha do reino ralada e mãos ao garfo!

Apanhei muito para aprender a fazer ovos poché. Assisti os programas do Gordon Ramsay, do Jamie Oliver e até da gorda Nigella e sempre ficava um treco nojento, com aquelas espumas de claras boiando na água fervendo. Foi então que o Dr. Google resolveu o meu problema e me mostrou os "egg poachers", que são recipientes nos quais colocamos os ovos dentro para mergulhar na água fervendo. Tem até um feito para microondas, mas daí achei fajuto demais. O que eu mais gostei foi um feito de silicone, em forma de flor. Mas recentemente aprendi um nova técnica, motivada pela ausência de aparelhos no momento: coloquei o ovo numa xícara de café untada com azeite e mergulhei na água fervendo. O resultado foi um maravilhoso ovo poché, firme, saboroso e sem risco de arrebentar. Deve-se apenas tomar cuidado para não cozinhar demais e endurecer a gema, porque a gema mole é fundamental no Eggs Benedicts.

Para fazer o molho holandês, pegue:

03 gemas batidas
01 colher de suco de limão
Raspas da casca do limão
1/2 xícara de manteiga
01 pitada de sal

Leve uma panela em banho maria, com as gemas e limão.
Adicione a manteiga aos poucos, mexendo sempre.
Quando estiver consistente, adicione o sal e as raspas de limão

O ideal é fazer o molho primeiro, que leva mais tempo. Eu tenho um truque americano para o molho holandês: a Knorr tem uns envelopes de molho instantâneo nos Estados Unidos, bastando acrescentar manteiga e água ou leite. Infelizmente não tem no Brasil.

Feito o molho, coloque para tostar os muffins no forno ou na torradeira com manteiga. Enquanto eles vão ficando douradinhos, vá fazendo os ovos poché. Quem não tiver English Muffin, pode substituir com qualquer outro pão, mas nesse caso eu recomendo os brioches ou aquelas bisnaguinhas tipo Egg Sponge, da Seven Boys. Se o molho ficar frio, dê uma leve aquecida em banho maria. Caso não encontre lombo canadense, pode usar presunto,eito de peru ou até o bacon comum, em fatias grossas, do tipo pancetta.

Pra quem nunca comeu, recomendo muito experimentar e, pra quem já comeu, vale muito repetir essa delícia!

Tuesday, December 28, 2010

Curando resfriados com receitas judaicas: Sopa Borscht



Eu sempre tive muita afinidade com a culinária judaica. Gosto de pastrami, gefilte fish, lox, vareniks. A única coisa que detesto é aquele raio de molho de beterraba e raiz forte que as velhinhas dZ-Deli insistem em nos empurrar goela abaixo. Elas tem uma frase comum, quando eu recuso o tal molho: "Gefilte fish sem raiz forte não é gefilte fish". De fato não é; é um gefilte fish melhor. Mas já me acostumei e tenho minhas teorias de conspiração de que a raiz forte faz você perder a fome, e daí você come menos no bufê.

Eu gosto muito de ir ao Z-Deli da Alameda Gabriel Monteiro da Silva, principalmente porque dá para sentar do lado de fora para almoçar no sábado. A única coisa ruim é que Dona Lonka, a atual proprietária, está velhinha e, pouco a pouco, está deixando os negócios a cargo de sua estúpida filha. Certa vez comprei uns dez gefilte fish para levar para casa. Dona Lonka insistiu que eu levasse a raiz forte e proferiu a frase mítica. Por educação, resolvi aceitar. E a filha não se fez de rogada. Olhou com aquela cara de peixe morto e disse: "De graça..."

Juro que guardei o potinho de raiz forte por uma semana em casa, tomando sol de verão na lavanderia para devolver a ela. Mas acabei desistindo, porque ela nem ia lembrar da própria mediocridade.

Mas graças a Deus, à Torah, à Kaballah e à Madonnah, tenho encontrado bons judeus pelo caminho e acabei experimentando a sopa Borscht no VegeTao, o restaurante vegetariano da minha amiga Regina.

Gosto da versatilidade dessa sopa, porque pode ser servida quentinha nos dias frios e fria, no verão. E aqui em Manhattan, reduto dos judeus do mundo, resolvi tentar fazer a tal sopa para aquietar meu resfriado. Então, para cultivar a veia judaica que há em cada um de nós, aqui vai a Sopa Borscht. Dizem que cada um tem sua receita particular, variando os ingredientes. Eu fiz um "mix" com os ingredientes que julguei sensatos:

01 kg de beterrabas

02 cenouras

02 batatas

03 tomates rasteiros maduros

01 cebola

Sal

Pimenta do reino moída

Azeite de oliva

03 folhas de louro

Ramos de funcho ou "dill" frescos

Sour Cream (ou creme de leite azedo, em tupiniquim)

1/4 de carne moída ou em pedaços

Um montão de água

03 colheres de sopa de vinagre de vinho tinto

Cozinhe a carne para fazer um caldo de carne. Quando estiver cozida, despeje os legumes, o sal, a pimenta, o vinagre, o louro. Os legumes, bem como o alho e a cebola devem estar previamente ralados ou, se preferir, cozinhe todos eles em pedaços pequenos e bata tudo no liquidificador após. Quando os legumes estivem bem cozidos (o parâmetro de cozimento é a cenoura estar mole, porque é a mais dura de todas), pode acrescentar a carne e deixar cozinhar mais um pouco. No finalzinho, acrescente uns galhos de funcho.

Sirva em prato fundo ou cumbucas, acrescentando uma colher de sopa de sour cream no meio, para ser misturado depois e um galhinho de funcho para enfeitar.

Taí. Eu tomei e ficou deliciosa, deu um calorzão daqueles. Eu que sou órfão bilateral de avós, senti uma dessas avós judias ancestrais me oferecendo essa deliciosa sopa para sarar meu resfriado. Mas escondido dela, tomei um bom vinho: um natural wine, Les Foulards Rouges - Le Soif du Mal, composto de uvas Syrah e Grenache. Sabor suave, parece menos alcoólico do que é na verdade. Combinou com o "momento beterraba" da noite.


Monday, December 27, 2010

Sopa francesa de Cebolas



Estou aqui em New York. Muito frio, acabou de nevar; dizem que foi a nevasca mais intensa dos últimos quinhentos milhões de anos. Tentei sair de casa, sem sucesso. Um vento frio, castigante. Tentei brincar na neve, completo desastre. Minhas mãos congelaram e ficaram até doendo de tanto frio. E a fome que vem com o frio? Inacreditável! Fome e frio combinam com...sopa! Sopinha quentinha com um bom vinho e pão italiano...

Decidi fazer uma sopa francesa de cebolas. Daquela que a gente pōe a torrada dentro do potinho e pōe pra grelhar no forno com queijo amarelo... Foi a primeira vez que fiz e, vou lhes contar... Ficou fantástica! Bem aventurados os que estão por perto, porque passam muito bem! Então lá vai!

Anote aí os ingredientes:

01kg de cebolas cortadas em cubinhos ou pequenas fatias
04 dentes de alho picados
100g de manteiga
02 colheres de sopa de farinha de trigo
Caldo de vegetais
800 ml de água
01 taça de vinho branco
02 folhas de louro
01 punhado de salsinha e cebolinha
03 cravos*
01 canela em pau pequena*
01 colher de sopa de mel*
02 fatias de pão italiano
Queijo Gruyère ou Gouda
Sal a gosto
Pimenta do reino moìda

Comece derretendo a manteiga na panela em fogo baixo. Doure o alho e acrescente a cebola com um pouco de água. Quando a cebola estiver transparente, despeje todos os ingredientes, exceto a farinaha, o vinho e a água. Deixe refogar um pouco, e acrescente o vinho. Refogue mais um pouco e acrescente a água. Mexa bem, cozinhe por uns 5 minutos e retire um pouco do caldo com a concha. Dilua a farinha no caldo, mexendo bem até dissolver totalmente e então jogue na panela. Cozinhe por 20 minutos em fogo brando e desligue.

Coloque a sopa numa tigela ou cumbuca e coloque uma fatia de pão em pé, por cima da sopa. Cubra a tigela com fatias de queijo. Coloque no forno para gratinar até o queijo ficar dourado. E....voilá!


Sopa francesa combina com... Vinho francês! Minha sugestão é o Château Mont-Redon 2003 - Domaine Châteauneuf du Pape. Delícia!

Thursday, December 23, 2010

Quiche de Pato e Quiche Lorraine



Eu gosto muito de quiches. É lógico, né? Eu acho que não publicaria em meu blog uma receita de algo que não gostasse. É um prato leve, geralmente acompanhado de salada, bom para comer no almoço ou no jantar.

Embora a sua origem seja normalmente atribída a França, a palavra quiche provém do alemão Kuchen, que significa bolo, sendo que a reigão de Lorraine, na França, origem de uma das mais famosas receitas de quiches, sofreu grande influência cultural alemã, pela proximidade geográfica.

Não tem muitos anos, houve uma popularização das quiches em São Paulo. As quiches deixaram de se esconder nos bistrôs franceses. Todo lugar servia quiches. Lanchonetes, restaurantes por quilo, bares. E logicamente, todas elas tinham gosto de empada. É logico que a massa é muito semelhante, porque tem a mesma constituição da "massa podre" que compõe as empadas. Mas quiche não é empada, nem empadão, nem torta. Quiche é quiche. Embora eu goste e até mesmo tropece, chamando de "o" quiche; é importante lembrar que quiche é uma comida-mulher. É "a" quiche.

O máximo da popularização das quiches que eu presenciei foram três faxineiras terceirizadas caminhando de pijama azul na Vila Clementino enquanto uma delas dizia: "Minina, você precisa me dar a receita daquele quiche que você fez, tava uma delícia"

Felizmente a febre das quiches passou e elas voltaram ao seu lar original: os bistrôs, os cafés sofisticados e os restaurantes elegantes. É lógico que podemos encontrar umas reminiscências dessa "bad" époque, principalmente no Franz Café (argh!)

As melhores quiches que já comi no Brasil eram feitas em um restaurante que já não existe mais. Era o Anquier, do chef francês Olivier Anquier. Eu costumava inclusive comprar várias para congelar em casa. Certa vez fui jantar lá com uns amigos. Era bem tarde e a cozinha estava quase fechando. No final do jantar, solicitei algumas quiches e dois rocamboles de chocolate para levar. De longe, via que eles preparavam várias sacolas, certo de que não eram minhas. De repente, uma comitiva de garçons se aproxima da mesa, trazendo umas dez sacolas. Disse a eles que devia ser um engano, mas o maître informou que era um "mimo". Nas sacolas haviam umas quinze quiches, seis rocamboles e uns seis pães especiais. Era a chepa do Anquier.

Quando estive pela primeira vez em Paris, por conta de um estágio, fiquei maravilhado com a delícia das quiches. Certa vez fui jantar na casa de uns franceses que prepararam uma quiche, bem na minha cara. Mas na época não prestei atenção e demorei muito para fazer eu mesmo, porque achava uma coisa muito "misteriosa" para preparar. Eu sabia como montar a estrutura, mas achava que a massa fosse muito complicada e tinha medo de errar. Besteira. Deu muito certo já na primeira vez.

Antes de chegar em casa, chequei mentalmente se tinha todos os ingredientes. Peguei uma receita na internet e "voilá". Só esqueci de uma coisa: o que ia por no recheio? Tinha uns pedaços de pato no freezer que não couberam napanela numa outra vez. Descongelei no microondas, cozinhei na panela de pressão e estava pronto o recheio da quiche.

Massa da Quiche

2 xícaras (chá) de farinha de trigo

2 colheres (sopa) de água

1 colher (chá) de sal

1 ovo

½ xícara (chá) de manteiga

Despeje a farinha numa tigela e adicine o ovo, o sal e a manteiga. Misture bem e acrescente a água aos poucos, até deixar a massa homogênea. Cubra com filme plástico e deixe por 20 minutos na geladeira. Depois, abra a massa e forre a assadeira, esticando a massa com cuidado. Faça furos na massa com um garfo. Leve ao forno médio, preaquecido, por 10 minutos.

Cobertura:


01 pitada de noz-moscada em pó

Sal a gusto

01 xícara de creme de leite

03 ovos

Bata todos os ingredientes numa tigela e reserve.

Recheio da quiche de pato

1/2 kg de carne de pato (gosto de usar a coxa, que é mais sulenta)

03 cravos

01 pau de canela

Um pouco de noz-moscada ralada

Pimenta do reino

Sal

02 tomates maduros picados em cubos

02 dentes de alho

01 cebola picada

Salsinha

Cebolinha

01 copo de vinho branco ou tinto

02 colheres de azeite de oliva

Complete com água até cobrir o conteúdo. Cozinhe tudo na panela de pressão até o pato ficar bem macio. Espere esfriar um pouco, desosse o pato e desfie ou corte em pequenos pedaços. Retire o caldo (que pode ser guardado para um excelente risoto) e tente retirar os cravos e a canela, pois a maioria das pesssoas não gosta de mastigá-los na comida.

Esquente a frigideira ou a Wok, com um fiozinho de óleo. Frite o pato e seus ingrediente na panela, mas não deixe ficar seco. Se achar que secou demais, coloque um pouco mais do caldo e reserve.

Pegue 1/2 xícara do caldo coado, acrescente uma colher de sopa de manteiga e bote para ferver em fogo baixo. Esse caldo será jogado na massa base da quiche para torná-la mais macia.

Recheio da Quiche Lorraine modificada por Doutor Fofinho

(Essa é uma das receitas mais tradicionais e saborosas de quiche e uma de minhas prediletas)

02 dentes de alho picados

1/2 cebola picada

250mg de bacon picado em cubos

250mg de ricota fresca esmagada no garfo (quanto mais cara, melhor!)

250mg de tomate cereja bem docinho (procure aqueles bem vermelhinhos que são vendidos nas feiras livres)

Sal (cuidado com o sal, porque o bacon já costuma deixar bem salgado!)

Pimenta do reino

Salsinha e cebolinha

Frite bacon e acrescente o alho, a cebola e o tomate. Quando o tomate estiver amolecido, acrescente a ricota, o sal e a pimenta.

Montagem da Quiche

Antes de jogar o recheio, deve-se fazer um caldo, que pode ser o próprio caldo que restou do cozimento do recheio, um algum tipo de caldo de carne ou legumes. Eu nunca uso caldos prontos, porque são cheios de corantes e conservantes. Ferva o caldo com uma colher de sopa de manteiga. Outra opção é ferver alho, cebola, manteiga e um pouco de água até adquirir uma consistência cremosa. Despeje esse caldo sobre a massa, para que ela fique umedecida.

Sobre a massa que forra a assadeira, despeje o recheio generosamente. Quanto mais recheio, mais alta e apetitosa fica a quiche. Sobre o recheio, jogue a cobertura de ovos e creme de leite. Leve ao forno médio preaquecido por volta de 30-40 minutos.

A quiche estará pronta quando a massa do recheio estiver crescido e douradinha. Serve-se cortando em fatias triangulares, com salada. Em minha opinião, a salada que mais combina com a quiche é a tradicional salada de folhas francesas, composta de alface crespa bem crocante e rúcula ou "mâche" uma parente da rúcula com folhas menores e sabor mais suave. Acrescente nozes picadas, azeite e mostarda Dijon. Por favor, não coma quiche com arroz ou macarrão. Muito menos com batata-palha.

Comer quiche combina com tomar vinho. Tenho preferência pelos tintos encorpados, mas no calor, um branco ou um rosé casam muito bem. Tem uma marca de vinhos australianos que eu gosto muito, chamada Yellow Tail. Adoro o Merlot que eles têm. É um vinho barato, com sabor encorpado; vale à pena.