Friday, June 29, 2012

Tapioca “Recepciona-Marido” (Vulgo Tapioca com Queijo Coalho, Tucuman e Manteiga de Garrafa)




Ainda não conheci ninguém que não goste de tapioca. Mas existem, de fato, tapiocas e tapiocas. Isso porque a qualidade da farinha, se ela está fresca ou não, pode interferir no resultado final. Hoje em dia a tapioca está na boca do povo em vários lugares do Brasil. Tem tapiocaria pra tudo quanto é lado, barraquinhas na feira, na porta do metrô. Hoje tem tapioca de tudo quanto é coisa: de carne, de frango, de fruta, até de strogonoff. Até acho legal a criatividade das pessoas, mas em matéria de comidas regionais, prefiro sempre as receitas tradicionais. No caso da minha tapioca, o recheio predileto é o queijo coalho com coco, ou queijo coalho com banana. Na Feira Livre que acontece aos domingos na Alameda Lorena em São Paulo, tem um tiozinho que vende a farinha fresca e faz uma tapioca deliciosa. E também dou meu aplauso em pé para a tapioca de carne seca com requeijão nordestino do Restautante Mocotó.

O ideal é comprar a farinha de tapioca nas casas de Norte, nas feiras de rua ou nos mercados municipais da cidade. Eu costumo trazer de Manaus ou de Salvador. Quando a farinha está fresquinha, eles chamam de “goma” e deve ser usada em no máximo 3 dias ou colocada de molho na água na geladeira. Quando ela já está seca, como quando é vendida no supermercado, é melhor “hidratá-la”: basta colocar de molho na água por algumas horas, até que farinha fique toda depositada no fundo, dura como um cimento. Daí é só escorrer toda a água, deixar um pouco no sol, picar em pedaços e ralar numa peneira fina.

Antes de fazer a tapioca propriamente dita, vá fazendo o recheio. Corte um pedaço de queijo coalho e ponha para derreter no fogo, numa outra panela, com um pouco de manteiga. O tucuman é um fruto típico da Amazônia, nasce de uma palmeira espinhosa e os nativos descascam a estreita polpa que tem um sabor levemente cítrico. Na primeira vez que comi, achei meio sem gosto. Mas conforme foi passando o tempo, fiquei viciado. Se você conseguir o tucuman, coloque algumas das cascas para dar uma fritada junto com o queijo. Se não encontrar, o queijo coalho combina com tomate picado, orégano ou mesmo leite condensado.

Pegue a farinha de tapioca já peneirada, ou pode peneirar na hora. Acrescente um pouco de sal à farinha, porque senão fica meio sem gosto. E vamos lá à receita da tapioca: coloque para aquecer a frigideira (eu tenho a minha pequena, do tamanho de um pires, mas pode ser de qualquer tamanho. Quando estiver quente, coloque a farinha, polvilhando em toda a frigideira. Depois aperte a farinha com a colher. A espessura da tapioca fica a gosto do freguês. Eu prefiro as tapiocas mais finas. Quando estiver toda “juntinha” (o calor faz a tapioca “derreter” e o pó se junta), vire do outro lado para tostar sem deixar queimar. Depois de tirar da panela, junte o recheio. Não coloque nenhum tipo de gordura para fazer a tapioca.

A manteiga de garrafa geralmente fica endurecida. Para deixá-la liquida, coloque no sol ou um pouco no microondas ou perto do fogo no fogão. Quando a tapioca estiver pronta, passe um pouco da manteiga de garrafa com um pincel ou com uma colher. Coloque então o recheio e dobre-a ao meio, ou faça duas para fazer um sanduíche.

Tapioca pra mim é coisa de café da manhã. Então, pra mim deve ser tomado com um bom café com leite. Mas tem gente que almoça tapioca e toma uma boa cerveja junto. Sei lá, gosto é gosto. Mas a tapioca é sempre maravilhosa!


Thursday, June 21, 2012

Cartola do Fofinho



Não faz muito tempo que provei essa deliciosa sobremesa na Bahia. Pesquisando sobre suas origens, encontramos várias teorias. Um amigo paraibano disse que a “verdadeira Cartola” vem de Pernambuco; mas há quem atribua suas origens ao Rio Grande do Norte, ao Piauí  e até a Portugal. Só de uma coisa tenho certeza: a cartola baiana é diferente das outras cartolas, porque é feita com queijo coalho, enquanto nos outros estados é feito com o “requeijão”.

Tem gente que adiciona chocolate, outras frutas, leite condensado, mas, em matéria de comidas regionais, eu sou a favor da fidelidade às tradições. Outro dia descobri um restaurante natureba em São Paulo que serve Cartola. Descobri, em tempo, que eles serviam o queijo e a banana num pão. Deu tempo de gritar para tirar o pão da jogada e comer algo mais próximo do original.Assim sendo, a Cartola do Fofinho é igual às tantas que comi nas minhas inesquecíveis viagens à Bahia.

Anote aí os ingredientes:

2 ou 3 banana-da-terra bem maduras cortadas em tiras
250 g de queijo coalho ou requeijão nordestino cortado em tiras
Manteiga de garrafa (ou manteiga comum)
Mel de engenho (Melaço de cana)
Canela em pó


Frite as bananas na manteiga até ficarem bem douradas.  Numa tigela refratária ou assadeira pequena, unte o fundo com um pouco de manteiga. Vá fazendo camadas, alternando o queijo, a banana e um pouco de melaço. Polvilhe canela na superfície e coloque em forno médio pré-aquecido, até ver que o melaço está borbulhando ou ver que o queijo se derreteu.

Sirva em pequenas porções. Deve ser comido ainda quente. Também fica charmoso montar porções individuais em potinhos de barro ou cerâmica, ou até mesmo em ramequins. Uma dica deliciosa é servir com um pouco de doce de leite caseiro, que dá uma harmonia espetacular à sobremesa. 

E para acompanhar, apesar de não ser muito fã de cachaça, eu sugiro essa deliciosa relíquia descoberta por amigos em Monte Alegre do Sul: A Cachaça ao Mel, da Cachaçaria da Fonte. (http://www.fontedacachaca.com.br/)


Sunday, May 13, 2012

Xinxim de Galinha





Dizem que é comida de orixá, como quase toda comida baiana. Cheguei a dar uma fuçada pela internet para saber a quem pertencia o xinxim, mas só encontrei controvérsias: Oxum, Iansã, Pomba-gira, Oxossi Akeran. Deixa pra lá. Uma hora descubro. O importante é que é fácil de fazer, barato e delicioso.

Não me lembrava de ter comido antes; a memória mais viva que tenho do Xinxim de Galinha é de um episódio dos Trapalhões no qual o Didi faz o papel de um garçom e, quando o cliente do restaurante pede o Xinxim, ele traz uma galinha sentada num pinico e diz: “A galinha tá aqui. Agora o xixi, tem que esperar um pouco.”

A idéia de fazer um Xinxim surgiu do pedido de uma amiga que, apesar de mineira, costumava comer esse prato, preparado por uma baiana que morava em sua cidade. E foi realmente uma ótima idéia: um prato de lamber os beiços, de dar calor e muita vontade de cair numa rede logo depois.

Então, se quiser fazer esse prato que só é “light”na amarelidão do dendê, anota aí a receita:

1,5 kg de frango cortado em pedaços ( eu usei coxas, sobrecoxas e peitos)
02 cebolas médias
06 dentes de alho picados
01 vidro pequeno de azeite de dendê
100g de amendoim torrado e sem casca
100g de castanha de caju
01 maço de coentro
01 copo de cachaça
01 vidro pequeno de leite de coco
Sal
Folhas de louro
Pimenta-do-reino

Modo de fazer:

Pique ou amasse todo o alho e esfregue o alho com o sal nos pedaços de frango, deixando descansar por 3- a 60 minutos.

Num liquidificador, bata as cebolas, o amendoim, a castanha, o coentro e o leite de coco até formar uma massa homogênea.

Feito isso, aqueça o azeite-de-dendê e, quando estiver borbulhando, frite os pedaços de frango até ficarem cozidos e dourados. Acrescente a mistura do liquidificador na panela e vá misturando com cuidado. Acrescente as folhas de louro, a pimenta-do-reino e a cachaça, mantendo em fogo de médio a baixo, por cerca de 30 minutos.

Sirva com arroz branco e farinha de mandioca baiana cozida no dendê. Para quem gosta de coentro, pode deixar também uns galhos frescos para jogar por cima do prato.

E para beber, acho que tem que ser cerveja mesmo. Pra mim, comida baiana é assim: cai muito bem com uma cerveja bem gelada.

E um bom apetite!



Wednesday, May 9, 2012

Dica para tirar a pele do pimentão!

Outro dia fui a um desses eventos de laboratórios farmacêuticos. Estava todo empolgado, porque achava que ia filar bóia no Arola, o restaurante espanhol do Hotel Tivoli. Que nada. Um espaço de eventos no subsolo. Antes da palestra, as entradinhas me deixaram empolgado: tudo muito gostoso. Pensei que o jantar ia ser um escândalo. E foi. Mas um escândalo negativo. Filé queimado, comida fria e por aí vai.

A aula foi boa, mas o melhor mesmo foi ter aprendido como despelar o pimentão com um grupo de psiquiatras que estavam na minha mesa. Tem gente que tira a pele do pimentão porque diz que faz mal ou porque não gosta do gosto. Eu quis aprender para poder fazer aquele pimentão em conversa que é servido com antepasto. E o procedimento é muito simples: coloque os pimentões na panela de pressão com o cabo virado para cima. Já dá pra entender que não dá para fazer muitos né? Tampe a panela, coloque no fogo e, quando começar a fazer barulho, vulgo "dar alarme", conte DOIS MINUTOS E MEIO e desligue o fogo. Nem meio minuto a mais, segundo a psiquiatra dona da "mutreta", porque ele pode ficar muito mole.












O resultado é fascinante: espere esfriar um pouco para poder pegar o pimentão; a pele facilmente se solta e o pimentão está pronto, cozido, pronto para ser temperado. Tire o cabo e as sementes, que já se solta facilmente, parta em pedaços e tempere com alho moído, sal, azeite e pimenta. E está pronto um delioso antepasto para comer com um pão italiano!


Bom apetite!





Saturday, April 28, 2012

Mitos e Verdades sobre a Placa de Sal Rosa do Himalaia


Faz muito tempo que ouço um amigo très chic falar de suas incursões a supermercados e empórios em busca do tal sal rosa do Himalaia. Até então seus comentários nunca aguçaram a minha curiosidade. Achava, fancy, pitoresco, super gay. Nunca me interessei em usar. Mas, vendo um programa de TV no Canal Food Network, nos EUA, descobri um restaurante que fazia kebabs assados nessa placa maravilhosa. Consegui comprar no Amazon e também está à venda em lojas como "Sur la Table"e "Williams Sonoma, lá no Tio Sam.Uma ótima notícia: descobri que as placas já se encontram à venda nas lojas da Bombay em São Paulo, mas são placas pequenas e mais finas, que portanto irão durar bem menos
(http://www.bombayherbsspices.com.br).



Sim, ela demora para esquentar. Cerca de 40 minutos. Depois disso, é só alegria! E o resultado é simplesmente fascinante! Apoiando a placa diretamente no fogo, no grill, na churrasqueira a até mesmo no forno, basta untar a placa com azeite e cozinhar os alimentos, sem nenhum tempero prévio. O resultado é, no mínimo, curioso: o alimento cozinha rapidamente e o sal da placa tempera na medida! Mas prepare-se! A placa faz uma sujeira daquelas e é difícil de limpar depois. Nossa estréia foi com camarão pistola, shitake, champignon e legumes. O polvo que não foi muito feliz. Ficou duro feito um pau, simplesmente "incomível".


Na sessão de hambúrgueres, uma certa decepção. Os hambúrgueres, recheados com queijo Gruyère, ficaram lindos, moreninhos por fora, mas um pouco frios e crus por dentro. Mas mesmo assim ficou gostoso. Nessa "versão", o hambúrguer acompanhou batatas que foram previamente cozidas para amolecerem um pouco.




Na terceira incursão às Aventuras da Placa do Sal Rosa, foi a vez
da majestosa picanha. Como se não tivesse aprendido a lição, comecei com fatias grossas e coloquei duas cebolas e vários dentes de alho para assar.  Mas logo me lembrei da lição deixada pelos hambúrgueres e cortei fatias bem finas, quase  microscópicas da picanha. O resultado foi fascinante: elas ficam prontas muito rápido, a carne não fica escura, ela fica bem clarinha e o sal tempera deliciosamente. Para acompanhar, os alhos grelhados se derretem como uma pasta e, amassados dão um sabor todo especial à carne. Também fiz um vinagrete delicioso que levava limão rosa ao invés de vinagre. 





E se puder escolher entre fogão, forno ou churrasqueira para usar a placa, escolha a última. Porque, apesar de delicioso, no fogão faz uma sujeira danada. Mas se for usar forno ou fogão, não se esqueça de forrar com papel alumínio antes, coisa que eu não fiz da primeira vez.




Limpar a placa é um capítulo (muito) à parte. Das técnicas desenvolvidas por tentativa e erro, a melhor que encontrei foi raspar com um espátula de metal enquanto ainda estiver quente, adicionando um pouco de água. Também comprei uma esponja sintética, imitando buchas de aço, mas que não deixam resíduos na placa. Ela fica feia depois do primeiro uso e notam-se os buracos do desgaste. Cuidado para não jogar água muito quente e nem deixar a placa de molho, porque ela pode dissolver ou quebrar. Mesmo com todos esses cuidados, ela pode se quebrar. A minha quebrou, mas com sorte foi uma trinca bem na ponta, permitindo que ela fosse usada outras vezes.


 Apesar de tudo, não me arrependo de ter comprado. É um jeito interessante de preparar a comida e muito saboroso! Finalmente depois de seis ou sete "episódios", ela faleceu. Em seu último uso, eu já imaginava que ela estivesse na UTI. Estava muito corroída, bem escura, cheia de veios profundos e dito e feito: quebrou-se na última lavagem. Mas já tinha comprado outra, que estreei recentemente. 



Tartiflette Fofoletique



Quando se fala de comida francesa, sempre pensamos em coisas muitos sofisticadas e complicadas de fazer. De fato, tem muita coisa elaborada, mas a culinária francesa não vive só de glamour. Tem gente da roça, das montanhas, da beira da praia. E, de cada região, uma riqueza, um vinho, um queijo.  Até porque nem toda França é Paris.

A Tartiflette é um típico exemplo de um prato sofisticado, delicioso, que impressiona na mesa, mas é muito simples de fazer. É um prato típico da Savoie, região dos Alpes, fria e montanhosa. É um prato “quente”, daqueles que dão suador ao comer e caem muito bem nos dias frios, acompanhado de um bom tinto. O prato é feito com um queijo chamado Reblochon,  proveniente dessa região; um queijo encorpado, de sabor pronunciado e bastante gorduroso e calórico, porque é feito com o leite que permanece mais tempo nas tetas da vaca, acumulando assim mais gordura e nutrientes.

Na França,  o nome do prato costuma mudar conforme o ingrediente utilizado ou a região de onde ele vem. No restaurante Les Caves de Bourgogne, por exemplo, comi um prato idêntico chamado Cassoulette. A Raclette é um prato semelhante, onde o queijo é raspado e fundido sobre diversos tipos de alimentos.

Mas aqui no Brasil, ninguém vai ser tão rigoroso. E seja qual for o queijo utilizado, o resultado vai ser fascinante. Sendo assim, tome nota dos ingredientes:




01 ou 02 queijos Reblochon de 300g (na falta dele, pode-se usar um Camembert. Eu usei o Camembert Coeur de Lion, que tem um sabor bem encorpado).
1kg de batatas
300g de bacon (ou panceta)
½ litro de creme de leite fresco
03 dentes de alho
01 cebola grande bem picada
Sal
Pimenta do reino
Azeite de oliva
Vinho branco


Deixe o queijo fora da geladeira, desembrulhado, por no mínimo 2 horas. Para quem tem medo do cheiro ruim do queijo, isso ajuda a liberar os odores desagradáveis, deixando só a parte boa do queijo.

Cozinhe as batatas, tomando o cuidado para não deixá-las muito moles. Quando estiverem cozidas, pele-as deixe-as esfriando, sem jogar água. Ao esfriarem, corte em fatias largas ou pequenos cubos.

Numa frigideira, esquente um fio de azeite. Doure o alho, acrescente a cebola e o bacon. Refogue até o bacon atingir uma cor brilhante, abaixe o fogo e acrescente o creme de leite. Coloque ½ copo de vinho branco, uma pitada de sal e deixe ferver um pouco. Desligue o fogo.

Unte uma assadeira ou refratário (eu usei uma assadeira oval de barro) com um pouco de azeite. Disponha as batatas no fundo e depois despeje o conteúdo da frigideira.

Pegue o queijo, divida-o no meio com uma faca e coloque ele sobre o conteúdo da assadeira, com a “casca” voltada para cima, como se fosse uma tampa. Leve ao forno pré-aquecido e retire quando estiver dourado. Ao servir, pode polvilhar um pouco de pimenta do reino.

Sirva pequenas porções em pratos e como ainda quente. O queijo costuma derreter e se misturar com o creme de baixo, com um sabor delicioso. Na França, não costuma ter acompanhamento e o molho é comumente degustado com pedaços de pão. Entretanto, é um prato que casa bem ser servido com arroz branco, costume bem comum entre os brasileiros.

E para beber, lógico que eu prefiro um bom vinho tinto.  Minha sugestão, só para ser completo, é um vinho da região da Savoie, o Mondeuse Arbin.
 
Et voilá! Bon apétit!